Ó O CRÍTICO!
Sexta que vem começa a Mostra Estadual de Teatro e Dança.
Havia dois anos que não era feita.
Em 2006, foi quando eu comecei a me especializar na área de teatro, dentro do jornal, acompanhando estréia, lendo sobre. Era o período de aprendizado. Hoje ainda é. Aquela época era o começo do começo.
Eu jantava no bar de Escurinho, no intervalo da primeira peça da Mostra competitiva e antes da apresentação da mostra paralela cujo palco era montado fora do teatro.
Tava eu lá e o velho e bom Escuro, cantor e ator da trupe da Piollin, me disse:
- Tás vendo aqui pra depois (ele bate uma mão na outra com força)... Meter o pau lá no jornal, né?
Rimos.
Falei nada, continuei comendo.
Enquanto isso, apareceu Xu.
- preciso explicar quem é Xu. O nome dele é Antônio. É um ator. O apelido Xu tem uma história ótima. Foi o Cartaxo, diretor, que tendo o Xu como aluno disse, “Ô, Antônio, você é duro que nem o Schwarzenegger”. O nome começou a ser abreviado: virou Tom Xuá, agora, é simplesmente Xu.
Ele, o Xu, estava na mostra com um monólogo sobre o País de São Saruê.
Chegou, parou em frente ao bar e do nada começou a dizer pra Escuro:
- Já dizia Stanislavski. “É o crítico menor do que nada” (ele continuou a citação, não lembro o resto). Ou seja. O crítico não é nada.
Enquanto ele conversava, Escurinho me olhava com a melhor malícia do olho dele. As pupilas rindo, rindo. Assim que Xu terminou, Escuro olhou pra ele, pôs a mão no meu ombro e daquele jeito de quem está cantando e disparou:
- Pronto! Ó o crítico aqui! Ó o crítico!!!!
Escrito por Astier Basílio às 10h28
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A não entrevista com João Gilberto.
Foi num quiosque, em Ipanema, à madrugadinha que eu não
entrevistei o João Gilberto. Não combinamos que ele
iria passar no local marcado, com um boné e uma roupa
de velhinho.
João, como está a criação de formigas?
Ah vai bem. Você sabia que elas são ótimas companhias?
Ô.
Não fazem barulho. Se alimentam da mesma casquinha de laranja. É isso.
- meia hora de silêncio -
Eu tenho a impressão de que se fosse você, e não Borges,
o personagem do conto “O Outro”, aquele em que o Borges
velho se encontra com o novo, acho que vocês não conversariam
nada um com o outro, né?
Não entendi.
Eu disse. Se você encontrasse, agora, com você mesmo,
só que numa versão com vinte poucos anos,
que papo vocês teriam?
Essa conversa está ficando sem graça.
É
- mais meia hora de silêncio. Com 20 minutos ele fez um gesto com
a mão como se me pedisse pra ouvir algo, perguntei o que era, com
um gesto do rosto, ele fez uma careta como quem dissesse: "não,
não era nada".
E o Stan Getz, é uma besta mesmo?
Não vale a minha baga. Por falar nisso... - tira o boné, dentro
tem um saquinho. João aperta um fininho. Limpa, soca,
aperta, acende e diz - Fui campeão, em 1955...
Dos jogos internos estudantis de Juazeiro?
Do mundial carioca de apertamento de beque. (fecha o bicho, passa a língua)
Tá afim?
Antes eu podia ligar pra um amigo meu?
O quê? Perigo? Tem perigo não, o pessoal aqui da...
Eu falei "amigo" e não "perigo"
É sua voz: nasal demais, pra dentro, parece o Batman
Você viu o filme?
Não, não, mas vi o vídeo no blog do Renato Félix
Espera. - pego o celular, João Gilberto dá uma tragada,
prende a respiração e fala com a respiração presa:
Se você pedir pra eu cantar o Garota de Ipanema, no celular, eu lhe suicido!
Se você me perguntar como surgiu a Bossa Nova também, se você perguntar
quantos anos fiquei sem falar com o Tom, também, se eu ouvi o disco de Bebel
Gilberto também, se eu leio os livros do Ruy Castro também, se eu sei quem
é o meu vizinho, também... (solta a fumaça nas reticências)
Espera, João. (o telefone atende) Bráulio? – foi deixar bem claro
que é o Bráulio Filho, de Campina e não o impostor
(hauauaua) – Tudo bom Braulinho? Adivinha
com quem tô fumando unzinho? O quê? Que Otto que nada,
rapá, meu trunfo é pau. Mire alto. O quê? Porra de NX0!
Nada disso. Ó, tu não vai acertar não. Vê só: tá sentado? Se não tiver se sente porque
se não você vai ter um ataque fulminante de inveja
(hauauauauauauauau). E a gente tá mais fumando uma 'coisa'.
Pera, deixa eu passar o telefone pra ele.
Oi (põe a mão no telefone, pergunta, “como é mesmo o nome dele?”,
eu digo: Braulinho, João diz, "certo") E aí, Braulinho. É o João Gilberto. É, tamo sim.
Claaaro, tu acha que o barquinho ia e voltava como? (risos) Esse aqui é da melhor
qualidade (risos de novo) plantado lá em casa. Posso sim. Um reagge, claro.
Pede qualquer um (olha pra mim e diz: como é que eu ponho no viva voz?,
pego o celular e aperto a tecla). Bom, você podia ter pedido um raiz,
Eric Clapton nunca foi regueiro, né? E é do Bob Marley? (ri) Bom, assim sendo,
aí vai. (João me entrega o celular, eu aproveito pra filmar sua performance,
ele põe o cigarrinho entre os dedos e começa a tocar “I shot the sherif”,
como quem tivesse cantando “samba da bênção”)

Escrito por Astier Basílio às 22h21
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A MÁGICA DA MONTANHA
Comecei a ler "A Montanha Mágica", do Thomas Mann.
Durante um tempo, o preço desse livro foi parâmetro pra muita coisa na minha vida.
Explico: tinha uma namorada que sempre queria me presentear com um perfume, uma calça,
eu dizia: não, quero livro.
Ela insistia: olha essa calça, não é bonita? Vou te dar de aniversário.
A calça deveria ser algo em torno de 100 reais, não lembro bem.
Eu respondia: pôxa, essa calça são duas 'A Montanha Mágica'. Não posso vestir algo que custe
duas vezes o preço do livro que eu quero.
Não ganhei a calça - acho que não, não lembro meeesmo - mas ela me deu a "Odisséia" e
a "Ilíada", que eu queria muito também. Quando tivemos se juntar nossas coisas da casa um
do outro, eu roubei a obra reunidade de Fernando Pessoa, em dois volumes.
Tive uma boa razão pra isso, mas não vou dizer aqui.
Bom, "A Montanha Mágica" também foi presente :-)
Escrito por Astier Basílio às 11h50
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Dias corridos, nem deu pra atualizar o blog.
Foi mal.
Assim que escrever este post vou responder aos comentários. Eu demoro mas respondo, respondo todos.
Estou com vontade de fazer outra entrevista imaginária, mas não sei quem eu entrevisto, aceito sugestões.
Sim. Mudei o template porque a Uol tem umas coisas. O meu blog ficou de uma hora pra outra de vertical A4 pra horizontal. Entrei em pânico. Mudei o template, mas não resolveu nada. Vou conversar com o pessoal do portal- o Paraiba1- ver se eles me dão uma mãozinha. É desconfortante ver as letras espalhadas sem ordenamento.
Se não houve jeito, mudarei este endereço. Pena que não posso abrir um “desliguem os seus celulares” no blogspot, porque uma moça copiou minha idéia – sim, a data do blog dela é bem anterior à minha –
É isso.
Final do mês tem mostra de Teatro e este blog cobrirá tudinho.
Escrito por Astier Basílio às 18h56
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CADERNOS DE CABACEIRAS - 2
Quando eu recebia instruções do diretor, assistente e fotógrafo
para uma cena, hoje de manhã, me surpreendi quando o nosso motorista
e assistente de produção, “Seu” Galego, interveio e disse:
- Você faz o seguinte: entra no carro, olha pro retrovisor e
diz: Bora, porra!
Todos rimos e concordamos. A cena tinha de ter essa energia
mesmo.
Seu Galego tem 50 anos. O nome dele é Severino Bernardo.
Natural de Teixeira, é de Cabaceiras desde quando “era de menor”.
É pai de Bruno, o produtor local do filme. Dirigiu, auxiliou, emprestou
a espingarda para umas cenas. Foi ele quem me ensinou a dar tiros.
A arma não estava carregada com balas, só com espoleta, mesmo assim,
Guga, o técnico de som quando ouviu o resultado gravado disse:
- Tiro seco da porra!
Uma das coisas que mais ouvi nas gravações foi: “De novo!”.
Três vezes a cena do tiro. Fiquei meio mouco por alguns segundos.
Quando fui dar o primeiro tiro, era só pra testar: engatilhar, apertar
o gatilho e bum!
- Você é um atirador muito do fuleiro – disse Seu Galego.
Não tinha lhe dito que não estava em ação ainda, enfim, não quis explicar
pra ele nada. Pois bem, quando fui fazer a cena, que mirei, que dei o tiro,
que a pólvora cobriu meu rosto com uma fumaça bonita, seu Galego não
resistiu e deu uma tremenda risada – o que fez a gente regravar –
- Rapaz, você deu um tiro da moda mesmo, eu não resisti não.
Vou esquecer seu tiro mais nunca!
Seu Galego vibrou como um gol de futebol. Ele, e todos nós,
estamos assim, como uma partida de futebol: todos em suas posições
se esforçando pra dar o melhor, respeitando sempre o adversário, afinal,
filmar é uma caixinha de surpresas. E que surpresas.
Escrito por Astier Basílio às 19h49
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